Escrever é necessário para o psicanalista e para o ensinante.
Como psicanalista, deve-se dar testemunho do próprio afazer; deve-se presentificar a psicanálise no mundo.
Como pesquisador/ensinante, deve-se prestar contas do próprio ofício à comunidade acadêmica e a todos que se interessem pelo saber aí decantado. Fazê-lo a partir da posição de analista significa produzir um outro estilo de saber, diverso da mestria; um saber avisado da própria inconsistência/incompletude, lastreado na verdade do desejo.
Este site está sendo construído em resposta (entre outras) a tais compromissos.

De nossa posição de sujeitos, somos sempre responsáveis” (Jacques Lacan, A Ciência e a Verdade.)


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Psicanálise e Religião •PDF• •Imprimir• •E-mail•
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•Escrito por Noêmia Crespo•   
••Qui•, 25 de •Setembro• de 2008 00:00•

As investigações da Antropologia Cultural nos revelam que todas as culturas conheceram manifestações de sofrimento físico-moral para cujo manejo foi inventado o ofício dos xamãs, feiticeiros e afins. Todos os que, na atualidade, fazemos da causalidade psíquica o alicerce do nosso afazer, somos herdeiros dessa tradição. Cabe-nos determinar com rigor os pontos de conexão e de ruptura entre nossa práxis e a dos nossos predecessores – magos, sacerdotes e profetas.

Entrementes, nossa cultura vem sendo atravessada por um poderoso movimento de deslegitimação de todas as práticas de manejo do sofrimento psíquico baseadas na eficácia simbólica. O discurso dominante – capitalismo financeirizado de consumo de massa, fortemente enlaçado à tecnociência - promove um poderoso processo de coisificação e medicalização da dor de existir, tomando o sujeito como um produto, objeto manipulável como qualquer outro. Tolera ainda, marginalmente, terapêuticas psicológicas “de resultados”, oferecidas como coadjuvantes subalternas dos tratamentos psicofarmacológicos de última geração. Em nosso Admirável Mundo Novo, aposta-se na total homogeneização entre sujeito e objeto; o Santo Graal da pesquisa psicofarmacológica é uma versão qualquer do Soma, capaz de promover uma felicidade universal, bovina e permanente.

Neste cenário, como ficam as religiões? Já nos idos de 1882, Nietzsche decretou que Deus estava morto. Muitos outros pensadores, Freud inclusive, profetizaram um ocaso irreversível das religiões como resultado da expansão do discurso da Ciência. Curiosamente, não é o que vemos na atualidade, pelo menos não de forma homogênea. As religiões tornaram-se trincheiras de resistência política, ideológica e cultural de povos historicamente espoliados e subjugados, para os quais a globalização não tem sido propriamente uma bênção. Conceitos como os de guerra santa e martírio agradável a Deus conquistaram uma surpreendente atualidade no mundo contemporâneo, onde fazem contraponto ao ethos dominante do conforto e do consumo. Talvez como resposta a irrupções brutais desse neo-fundamentalismo anti-Ocidente – como os episódios de 11 de setembro - o discurso religioso de matiz reacionário vem apresentando uma notável ressurgência também no cenário cultural e político dos Estados Unidos. Lá, o neoconservadorismo político, o militarismo e o imperialismo têm lastro poderoso em certos grupos religiosos. Muitos neocons são também theocons. Já em países como o Brasil, as classes populares – e outras mais remediadas também - vêm buscando, em diferentes religiões, operadores simbólicos acessíveis para o desenvolvimento de laços de solidariedade, ajuda mútua, conforto espiritual e resistência contra a barbárie. A observação imparcial desse movimento revela um quadro paradoxal, onde experiências religiosas de autenticidade indiscutível se mesclam às mais variadas formas de exploração e abuso da fé popular.

Que lugar existiria para a Psicanálise no mundo contemporâneo, onde exorcismos, fundamentalismos, neo-conservadorismos, terapêuticas e teologias de resultados, de um lado - e psicofármacos, de outro lado, disputam ou partilham o antigo mercado das feitiçarias?

Diremos, à guisa de aposta, que a Psicanálise terá lugar enquanto puder acolher o lixo subjetivo da nossa cultura: o sintoma, a inibição, a angústia, no que resistem à redução, à domesticação, à dominação pelos saberes hegemônicos.

A aposta freudiana, que para muitos soa pessimista – mas não para nós -, é de que o mal-estar na civilização não tem cura. Não haverá Soma nem doutrina capaz de nos tornar formigas harmoniosas, legumes felizes para sempre. Buscaremos anestesia nos psicofármacos, até nos rebelarmos contra esta vida de zumbis capazes de engolir qualquer coisa que nos mantenha “funcionando”. Buscaremos respostas nas religiões, até descobrirmos que mesmo assim, precisamos inventar nosso modo pessoal de confrontar o que todas elas reconhecem como o Mistério infranqueável, o grande e insondável Silêncio dos deuses. As respostas genéricas não nos bastam. Deus não nos poupa da inibição, do sintoma e da angústia. Até certos relatos dos místicos nos revelam: Deus se esconde e se cala. Ele falta; por isso mesmo, aliás, para alguns, é possível amá-lo...

A Psicanálise é a presentificação da eficácia simbólica num mundo onde Deus está morto. Não, é claro, que não se acredite mais em Deus, ou nos deuses. Mas o Deus do dogma, do consenso universal compulsório, da censura generalizada a toda dúvida, esse está morto numa cultura onde somos adestrados, desde que nascemos, na famosa dúvida metódica do père Descartes. Agora, questionar as tradições e verdades absolutas não é mais proibido, ou feito na surdina do pré-consciente: é obrigatório. Isto significa que acreditar em Deus na atualidade supõe admitir explicitamente a hipótese de que, afinal, Deus pode muito bem não existir. Ou pode ser muito diferente do Deus dos meus pais e avós, e parecido com o Deus de meus vizinhos (de rua ou de mundo, afinal, hoje somos globalizados...) - cuja religião tem dogmas antagônicos aos da minha. As certezas que abrigo podem ser tão ilusórias quanto as do meu grande amor, por meu próximo ou por mim mesmo, que se revelou tendencioso e seletivo – ou, como as certezas que eu vivo nos meus sonhos, referir-se a um real estranhamente familiar, que só se apresenta para mim sob uma roupagem de despiste, ou sob um clarão de horror.

A Psicanálise é a presentificação da eficácia simbólica num mundo onde o buraco no simbólico não pode mais ser facilmente encoberto. O sujeito da contemporaneidade demanda respostas, doutrinas e certezas, com a mesma desesperada rapidez com que denuncia sua insuficiência, tão logo recebe o que demanda. “Não é isso!” Sabedorias, virtude, bons conselhos, não poderíamos viver sem isso. E disso temos muito, até talvez em demasia. Nossa cultura globalizada nos dá acesso a um inesgotável cabedal de sistemas filosóficos e religiosos, saberes e ideologias, desenvolvidos por nossos semelhantes agora mesmo, ou noutros tempos e lugares - sem mencionar a possibilidade de interagirmos virtualmente, em tempo real, com pessoas de qualquer lugar do mundo. Nessa Babel de verdades precárias e certezas em conflito, como encontraríamos o bálsamo para nosso mal-estar - aquele que teima em desafiar o que sabemos, ou julgamos saber?

Freud, um otimista, apostava que esse bálsamo não existe nem existirá. Apostava que seria possível desvelar a causa de nosso mal-estar subjetivo, pessoal, através de um resgate ao refugo da nossa produção psíquica – sonhos, sintomas, esquisitices, lapsos, atos falhos, transferência. Apostava que poderíamos inventar uma resposta singular para a nossa orfandade. Lacan, que vai além de Freud neste ponto, afirma até ser possível chegar ao entusiasmo, após atravessarmos nossos pontos de horror pessoal.

Dirão talvez que isso tudo é um luxo para privilegiados, um escândalo. Houve épocas em que aprender a ler era conotado da mesma forma. Como a psicanálise hoje, o letramento era privilégio acessível a poucos. Ora, a psicanálise é um processo de letramento, um tanto mais longo e penoso que o beabá, já que se trata de ler e refazer uma escritura singular - da linguagem, dos discursos que nos banharam, sobre nossa carne, ou melhor, com a nossa carne.

Como a experiência poética, a mística, o amor, a Psicanálise não está aberta a todos. Poucos são chamados, menos ainda escolhidos. Temos aqui outro escândalo sem remédio, dentre os inúmeros que a experiência de falantes nos obriga a suportar.

Tenhamos, então, paciência, e perseveremos na via que nosso sintoma nos faculta.

























ADMIRÁVEL MUNDO NOVO: RUMO À REMODELAGEM NEUROQUÍMICA DA ALMA?





O amor, descobriu-se, é um evento neuroquímico. O ódio também, que aliás se manifesta nos mesmos circuitos neuronais do amor. O escaneamento da atividade cerebral de sujeitos confrontados com fotos de seus objetos de paixão não exibe resultados muito diferentes dos que emergem da bisbilhotagem dos neurônios em sua resposta à visão de fotos de pessoas odiadas.

Cedo ou tarde, os neurocientistas descobrirão meios de fazer uma análise diferencial desses padrões de funcionamento. Mas isso de qualquer maneira não pode calar a pergunta: é a neuroquímica cerebral a causa do amor e do ódio?

Amor e ódio não são eventos neurais de desencadeamento endógeno. Resultam de interações ambientais do nosso sistema nervoso, tais como nossas memórias. Fazem sentido, ou parecem fazer, como resultantes de experiências vividas; são coerentes, são inteligíveis. Não se comparariam, então, com outro tipo de eventos, que por seu caráter aberrante, disruptivo e incompreensível, só poderiam resultar de disfunções internas dos circuitos neurais: transtornos emocionais e comportamentais, como hoje é moda chamar as fobias, as compulsões, as angústias, os atos e pensamentos obsessivos, as depressões, etc. - sem mencionar os fenômenos psicóticos, tais como delírios e alucinações. Um sistema nervoso normal, funcionando de forma saudável, pensam alguns, não exibiria os padrões de atividade neural que se traduzem naqueles tipos de pertubações psicopatológicas. Daí a esperança de que uma intervenção nesse nível, uma correção neuroquímica ou elétrica dos padrões de atividade neural, pudesse resultar na remissão daqueles transtornos.

Perguntamo-nos se, então, será possível manipular desse modo o amor e o ódio, também. Afinal, já existem cientistas oferecendo retificação neuroquímica de “estresse pós-traumático”. é corrente a queixa de que amamos de forma errada, ou as pessoas erradas. O ódio, esse também não é muito bem tolerado, por mais que resulte de interações inteligíveis (ou pretensamente inteligíveis) com as pessoas odiadas. Amar e odiar se e quanto quiséssemos, a quem quiséssemos, do modo que quiséssemos, pelo tempo que quiséssemos... bastando para isso realizar uma intervenção farmacológica finamente dirigida em nossos circuitos neurais! Seria a felicidade! Ou não?...

Surgem aí algumas inquietações. Usos autoritários dessa tecnologia, se ela fosse disponível, causam arrepios. Imaginem um tirano com o poder de manipular o amor e o ódio de seus concidadãos, inclusive inimigos de Estado... É poder demais.

Já existem cientistas oferecendo retificação neuroquímica de memórias traumáticas. Trata-se de tecnologia extremamente útil para amenizar o horror, a culpa, o estresse, de soldados que retornam de guerras, massacres e atrocidades. Logo disponibilizarão protocolos para lobotomia farmacológica de lembranças desagradáveis – excelente para ministrar a prisioneiros que tenham sofrido torturas, por exemplo.

Mesmo um emprego consentido desse tipo de tecnologia, expressamente demandado pelo consumidor, desperta questões. Até que ponto esse consumidor deseja mesmo o que demanda? Deve o médico fazer tudo o que lhe pede o seu paciente? E se forem intervenções irreversíveis? Queremos mesmo ter esse poder em nossas mãos? Cada um de nós, se pudesse ser entronizado na posição de déspota absoluto da pólis, com poderes de vida e de morte sobre todos os seus súditos, sem limites de espécie alguma, gostaria de assumir esse lugar? Julgaria estar preparado para isso? E entronizar o que queremos, ou julgamos querer, para nós mesmos, nessa posição de déspota absoluto da economia psíquica... mandar completamente em nós mesmos... determinar completamente o que sentimos... fazermos de nossos afetos os escravos de nossa razão consciente... será que isso seria nossa libertação, ou o auge de nossa servidão? Não resultaria disso o achatamento de nossa complexidade mental, afetiva e cognitiva, dos seus paradoxos, enigmas e contradições, tão ricos e fecundos, a uma linearidade apática? Não nos tornaríamos zumbis? Não estaríamos assim substituindo a selva de nossos pensamentos sabidos e insabidos, toleráveis e intoleráveis, a amazônia indomada e conflituosa de nossas paixões, por uma monótona plantação de espécies pretensamente úteis, monocultura de plantas arrumadinhas e cheirosas – sacrificando assim toda uma bio-diversidade, uma neuro-diversidade, uma psico-diversidade?

Poderiam argumentar que a manipulação neuroquímica de pensamentos e afetos seria eticamente aceitável, e desejável, quando se tratasse de eventos psicopatológicos, espúrios, insensatos, para os quais se tivesse determinado uma causação exclusivamente endógena. Ocorre que até essa dicotomização segregativa de normal e patológico, no que tange a eventos psíquicos, é objeto de discussão. E se as fobias, os pânicos, as compulsões, as obsessões, os delírios, as alucinações, as fixações sexuais, etc., fossem tão inteligíveis, e resultassem de interações ambientais, tanto quanto os pensamentos e afetos considerados não patológicos? Essa, como se sabe, foi a tese defendida por Freud: os sintomas, a inibição e a angústia, têm um sentido. Têm uma causa psíquica, relacionável à interação do sujeito com seu Outro, isso é, o que se chama a interação do sistema nervoso com o seu “ambiente”.

Se eu perco um ente querido, meu sofrimento é considerado normal. Se sofro demais, por tempo demais, isso já fica um pouco suspeito – inclusive para mim. Mas qual o padrão do aceitável? A média da população? Por quê? Se tenho uma percepção musical ou uma habilidade matemática acima da média estatística, isso não me inquieta; muito pelo contrário. Se tenho um luto de duração que se prolonga acima da média estatística, antes de condená-lo ao apagamento neurofarmacológico, por que não me interrogo sobre sua causa no território do sentido, da minha história? Por que não tento entender o que perdi nesse ente querido, o motivo pelo qual a sua falta não pode ser assimilada por mim? E por que eu preferiria anestesiar minha sensibilidade, por mais que ela me custasse o aguçamento da dor, se fosse este o preço a pagar pela intensidade do que vivo como delícias? E se dores e delícias fossem “avesso” e “direito” de uma superfície contínua?

 





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