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Bate-se numa Criança: o Processo do Fantasma •PDF• •Imprimir• •E-mail•
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•Escrito por Noêmia Crespo•   
••Qua•, 10 de •Maio• de 2006 00:00•

Resumo: A partir de uma perspectiva teórica freudo-lacaniana, “O Processo”, de Franz Kafka, é lido como se fosse o texto de um sonho. A cena de espancamento que ocupa um capítulo inteiro do livro de Kafka é comentada à luz do artigo “Bate-se numa Criança”, de Freud.

Poderoso, sombrio, engimático, O Processo pode ser lido de muitas maneiras.

Escutando a fala dos colegas que me precederam, algo de uma recorrência, de um entrecruzamento de temas e de interpretações, apareceu-me com clareza. Por outro lado, e paradoxalmente, é como se cada um tivesse lido um livro diferente. Talvez porque o mesmo livro tenha lido de modo diferente a singularidade de cada leitor...

De minha parte, decidi tomá-lo como se fosse o texto de um sonho. Ou seria um pesadelo?

A cena do sonho é dominada por um Tribunal sufocante e onipresente, Grande Outro absoluto, “eternamente pairando”, contra o qual toda resistência é inútil ou capaz de torná-lo ainda “mais fechado, mais atento, mais severo, mais maligno” (Kafka, 1997:132). Para esse Outro insondável, inacessível “ao senhor, a mim e a todos nós” (p.170), “não existem normas” (p.133); instância encarregada de aplicar a Lei, encontra-se acima e fora da Lei, subsumindo em suas teias o conjunto dos mortais comuns: “tudo pertence ao tribunal” (p.162)

O relato principia quando o protagonista, Josef K, é notificado de que está sendo acusado e processado pelo Tribunal. Jamais saberá o teor da acusação. Jamais terá oportunidade de defender-se. Jamais poderá pagar a sua dívida, senão com a própria pele. Está seguro da sua inocência, mas a máquina do processo funciona de forma tal que transforma qualquer inocência em culpa; “é o processo que se converte aos poucos em veredicto”(p. 228). O Tribunal não pode ser dissuadido; é totalmente inacessível às provas, e “não se esquece de nada”(p. 170). “Um único carrasco poderia substituir o Tribunal inteiro”, conclui o acusado (p. 165). Tudo o que se oferece a Josef K ante a ferocidade do Tribunal é uma posição de servidão abjeta, canina, que ele recusa – para no final ser morto à faca, “como um cão” (p. 246). Morte aviltante em si mesma - “como se a vergonha devesse sobreviver a ele” (idem): desdobra-se numa verdadeira segunda morte, degradação da honra para toda a eternidade.

O sujeito do sonho está disperso no texto, representado no protagonista e em outros personagens cuja humilhação e derrisão ele contempla. Não falta nem mesmo uma cena de espancamento, que parece funcionar em moto contínuo (p. 99) e nos lembra imediatamente o fantasma fundamental teorizado por Freud: “Bate-se numa criança” (Freud,1981).

Recuperemos brevemente o argumento de Freud nesse artigo. A cena que compõe a versão consciente desse fantasma exibe uma autoridade anônima, sem rosto definido, flagelando as nádegas de uma criança igualmente anônima. Tal cena dá prazer ao sujeito que a evoca, reduzido a um olho que contempla, e serve de pano de fundo imaginário para atividades masturbatórias.

Freud procura retraçar as origens desta cena fantasmática. Os pacientes que a relatam recuperam uma versão mais antiga, recalcada, envergonhada, onde se revelam as identidades do espancador e do espancado: nesta cena, é o pai do sujeito que aparece surrando uma criança odiada, irmão ou rival. O subtexto desta variante do fantasma é mais ou menos o seguinte: “O pai bate na outra criança, ele só ama a mim”.

Esta cena também dá prazer ao sujeito que a evoca. Mas é um prazer culpado e censurado.

Reencontramo-la no texto do Processo: a abertura súbita de uma porta mostra a Josef K um carrasco vestido em roupas de couro espancando dois guardas – os mesmos que o protagonista denunciara ao juiz de instrução, por terem comido seu café da manhã e tentado roubar suas roupas. Aqui, o agente de uma Lei obscena flagela os guardas usurpadores, como o pai surra o irmão odiado no primeiro tempo do “Bate-se numa criança”. O protagonista protesta, tenta suspender a punição, cuja crueldade lhe parece excessiva; porém, quando um dos guardas espancados solta um grito lancinante, é Josef quem toma o chicote e golpeia pessoalmente o personagem que gritava. Denuncia assim o seu gozo na cena, sádico e vingativo – um gozo de carrasco.

Mas, no escrito que dedica ao fantasma de espancamento, Freud vai mais além; reconstrói uma vertente mais radical desse fantasma, um segundo tempo totalmente inconsciente. Trata-se agora de uma cena onde o sujeito se vê espancado pelo pai, e goza com isso; desta vez, um gozo de caráter masoquista.

Freud especifica que esta faceta do fantasma não pode chegar a ser lembrada, porque jamais recebeu transcrição em palavras. O trabalho de análise a recupera das trevas do recalque originário, por inferência lógica. Mas é a mais importante de todas.

Se tomamos O Processo como o texto de um sonho – no caso, um sonho de angústia – podemos aplicar a ele algo do que Freud escreve sobe a realização de desejos imanente a sonhos desprazeirosos. Um subtexto possível ao pesadelo de ver-se perseguido por um Tribunal onipotente e cruel seria: “meu pai me castiga, porque reconhece em mim um rival perigoso”.

Meu pai me processa e me mata devido a meus desejos edípicos. Ser punido desse modo significa satisfazer, simultaneamente, esses desejos e a culpabilidade que despertam. “Querias tomar o lugar de teu pai junto à Mãe? Pelo menos o castigo merecido por isso tu terás”. O castigo funciona como lugar-tenente, como substitutivo, como símbolo da transgressão pretendida. A punição sofrida no conteúdo manifesto do sonho pode ser traduzida em termos de realização do desejo proibido no nível do conteúdo latente. Sonhar estar sendo punido pelo incesto significa sonhar com o referido incesto. Fantasiar que sou batido pelo pai equivale a fantasiar ter possuído a Mãe.

O personagem de Joseph K. parece belo aos olhos das mulheres em O Processo. É assediado por uma senhora casada, mulher do oficial de Justiça, e pela jovem funcionária de seu advogado (amante deste último, ao menos no entender do tio de K.). Numa passagem muito curiosa do texto, o advogado do protagonista afirma que o processo “adere” aos acusados, tornando-os sedutores para as mulheres. Esta fórmula recorda bastante certos mecanismos de deformação onírica descritos por Freud. O sujeito do sonho torna-se sedutor aos olhos de mulheres alheias por ser acusado, ou torna-se acusável por sentir-se um sedutor de mulheres alheias – como, por exemplo, sua própria mãe, na cena edipiana?

Se o pai de um sujeito lhe parece indigno de ocupar sua posição de pai, assume aos olhos do filho a imagem de um rival facilmente superável. Ora, os personagens que ocupam os cargos de autoridade masculina em O Processo – figuras que Freud situaria na “série paterna” - são praticamente todos corruptos, iníquos, degradados; enfatuados, porém abjetos. Quem seria, no conteúdo latente do texto, o verdadeiro réu da acusação do Processo, senão o pai daquele que o escreve? “Não mereces ocupar a função de representante da Lei, nem de esposo da minha mãe. És um impostor, usurpador incapaz de legitimar a própria posição. Eu faria bem melhor se estivesse em teu lugar!”

Existe, porém, um subtexto alternativo para a cena do fantasma em que o sujeito se contempla castigado pelo pai: “Meu pai me bate porque me ama”. É o que Freud desenvolve no texto “Bate-se numa criança”, onde prevalecem as catexias libidinais que ligam o sujeito ao pai, não mais à mãe.

O sujeito supõe que o pai bate nele porque goza com isso; tem prazer em privá-lo, em subjugá-lo. O espancamento metaforiza um estupro no dialeto da pulsão pré-genital anal e sádica. Aqui, o sujeito se identifica ao objeto abandonado, submetido à vontade do Outro, e procura o gozo que lhe falta pelo desvio do gozo do Outro.

Mais que o representante da Lei, o pai imaginário que o fantasma põe em cena faz a Lei com seu capricho. Ele mesmo está fora dessa lei; é onipotente e cruel, como o pai da horda primeva no mito freudiano “Totem e Tabu”. O fantasma “Meu pai me espanca” dá consistência imaginária a essa onipotência, da qual segundo Freud o neurótico alimenta uma nostalgia permanente; possibilita, desse modo, acesso a um mais-de-gozar, além do princípio do prazer.

Se o pai é onipotente, está fora da lei, escapa à castração, posso identificar-me com ele, e compensar-me desse modo por todas as minhas privações. Ele goza em meu lugar, dou-lhe procuração imaginária para isso. Que nada lhe falte, que não tenha limites. Ofereço-me prazerosamente como coadjuvante imaginário nesta cena onde ele goza dessa onipotência às minhas custas; projeto-me nele, faço dele meu representante, e gozo seu gozo suposto. Se o estupro é inevitável... “O fantasma, suporte do desejo, aprisiona em sua trama um resto de gozo inacessível ao sujeito”(Vidal, 1991: 136)

Não seria o Tribunal do Processo um nome desse pai gozador, onipotente e cruel, para o sujeito que o sonha, ou melhor, que o escreve? Não será O Processo um texto tão desconfortável por ler, como texto, no leitor, a maquinaria do fantasma fundamental - ou mesmo a montagem da pulsão, que fecha o circuito de sua satisfação no gozo virtualmente masoquista de fazer-se objeto do Outro?

A força do texto de Kafka marcou de tal forma a cultura que tornou-se o significante de uma advertência quanto às potencialidades demoníacas e despóticas de todo dispositivo designado para fazer valer a Lei. Dada a inconsistência e falta de garantias do Outro, todo dito de autoridade repousa em sua própria enunciação (Lacan, 1998:827). Todo poder confina com a possibilidade do seu abuso. A Lei é não-toda por força da estrutura, o que impõe ao sujeito o perpétuo afazer de contrapor-se ao gozo nocivo que teima em transbordar os limites do Nome-do-Pai. Freud, porém, nos adverte quanto à cumplicidade inconsciente que, apoiada no fantasma do “Bate-se numa criança”, pode levar um sujeito a convocar, provocar contra si mesmo e gozar, sem o saber, dos mesmos abusos, humilhações e sevícias contra os quais se rebela. A satisfação resultante desse mecanismo tenderá a resvalar para o excesso e a devastação, necessitando temperar-se por um saber sobre algo de sua verdade.

Bibliografia

FREUD, Sigmund (1900/1981) - “La Interpretación de los Sueños”. In Obras Completas, vol. I. Madri, Biblioteca Nueva.

FREUD, Sigmund (1915-17/1981) - “Los Sueños”: Lecciones Introductorias al Psicoanalisis, X a XV. In Obras Completas, vol. II. Madri, Biblioteca Nueva.

FREUD, Sigmund (1919/1981) - “Pegan a un Niño. Apotación al conocimiento de la génesis de las perversiones sexuales”. In Obras Completas, vol. III. Madri, Biblioteca Nueva.

KAFKA, Franz (1997) – O Processo. São Paulo, Editora Brasiliense.

LACAN, Jacques (1998) - “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”. In Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora.

VIDAL, Eduardo (1991) - “Masoquismo originário: ser de objeto e semblante”. In Pulsão e Gozo. Revista da Escola Letra Freudiana no. 10/11/12.

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