Escrever é necessário para o psicanalista e para o ensinante.
Como psicanalista, deve-se dar testemunho do próprio afazer; deve-se presentificar a psicanálise no mundo.
Como pesquisador/ensinante, deve-se prestar contas do próprio ofício à comunidade acadêmica e a todos que se interessem pelo saber aí decantado. Fazê-lo a partir da posição de analista significa produzir um outro estilo de saber, diverso da mestria; um saber avisado da própria inconsistência/incompletude, lastreado na verdade do desejo.
Este site está sendo construído em resposta (entre outras) a tais compromissos.

De nossa posição de sujeitos, somos sempre responsáveis” (Jacques Lacan, A Ciência e a Verdade.)


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Ai, o Amor (III) •PDF• •Imprimir• •E-mail•
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O amor romântico é um anacronismo, lê-se todo dia em colunas de experts. Há que substituí-lo por uma versão pragmática de laço afetivo – por exemplo, um contrato sem exclusividade, e de fácil rescisão... Afinal, nenhum romantismo sobrevive ao tempo. O mais belo parceiro, com a convivência, torna-se tão familiar e rotineiro quanto um ítem de mobiliário. O mais estimulante parceiro, com a convivência, torna-se previsível, repetitivo, tedioso... Se o que se espera do amor é o deslumbramento, a surpresa, intensidade permanente, paixão em tempo integral, é fatal o desencanto.

Tenta-se contornar essa maldição com estratagemas diversos: paixões seriais de ciclo curto; escolha de parceiros proibidos e/ou impossíveis (este truque é muito empregado, inconscientemente, pelos neuróticos – de longe, é sempre mais fácil manter uma idealização do objeto amoroso); ou, simplesmente, a substituição do amor pelas suas variantes pragmáticas, sejam elas tradicionais, sejam elas pós-modernas.

Alguns sujeitos, porém, conseguem garimpar fagulhas de encantamento pelo parceiro mesmo em relações conjugais “antiquadas”, marcadas pelo grande tempo de convivência e de habituação.

Como o conseguem? Isso é, em grande parte, um mistério. Parece que certos sujeitos possuem uma constituição psíquica vocacionada ao amor duradouro pontuado por instantes de paixão; outros, não - e não existe receituário, doutrinação ou ortopedia da alma que possa mudar esse quadro.

Os que conseguem manter esse “amor romântico” em laços conjugais de longo ciclo, para incredulidade de alguns e inveja de outros, costumam ter também outros amores, não necessariamente sexuais em sentido estrito. Amigos, afazeres, desafios; jardins a cultivar, poemas, filhos... causas comuns ou individuais, que o parceiro partilha e/ou admira. Trabalham. Incentivam-se, confortam-se, apóiam-se; dividem seus momentos de entusiasmo; encontram um no outro o refrigério para as asperezas, dores e  infortúnios que a vida nos impõe a todos.

Ao lado disso, estranhamente, conseguem vez por outra reativar a cena de sedução com que cada um fisgou o outro. O caráter francamente alucinatório dessa cena possibilita-lhe sobreviver à habituação, à deterioração da beleza física, e a muitas intempéries; ela se agarra em palavras espertas, fiapos de voz, de olhar ou de cheiro -  e se sustenta, à prova do tempo, na fantasia.