Escrever é necessário para o psicanalista e para o ensinante.
Como psicanalista, deve-se dar testemunho do próprio afazer; deve-se presentificar a psicanálise no mundo.
Como pesquisador/ensinante, deve-se prestar contas do próprio ofício à comunidade acadêmica e a todos que se interessem pelo saber aí decantado. Fazê-lo a partir da posição de analista significa produzir um outro estilo de saber, diverso da mestria; um saber avisado da própria inconsistência/incompletude, lastreado na verdade do desejo.
Este site está sendo construído em resposta (entre outras) a tais compromissos.

De nossa posição de sujeitos, somos sempre responsáveis” (Jacques Lacan, A Ciência e a Verdade.)


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Ai, o Amor (IV) •PDF• •Imprimir• •E-mail•
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 O amor e o ódio podem andar muito perto um do outro. Em certos casos, são praticamente a mesma paixão. Só amo aquele(a) que odeio, de quem me ressinto, a quem invejo. Ou: odeio a quem amo, pelo crime de ter-me feito depender do seu amor. Ou: odeio a quem amo, por não suportar o sufoco de seu carinho, sua entrega, sua disponibilidade devoradora. Ou: odeio a quem amo, porque me sinto obrigado a mostrar-me perfeito, maravilhoso, infalível a seus olhos. Ou: odeio a quem amo, porque me quer por um pedaço do meu corpo, me trata como uma coisa. Ou: odeio a quem amo, porque pode preferir alguém a mim. Ou...

Alguns desses amores revivem o drama de um laço muito primitivo de desamparo e dependência. Reativam a criança exposta à secura, ou imprevisibilidade, ou crueldade, ou “grude” irrespirável, da mãe. A criança insatisfeita pode tentar morder, arrancar da mãe “na marra” aquilo que ela recusa. Outra pode sentir-se tão subjugada, tão oprimida, a ponto de preferir uma distância segura de quem sucede sua mãe sufocante, que não “larga do seu pé”. Outra pode tornar-se refém do próprio poder de seduzir, encantar a mamãe, e transformar-se num(a) sedutor(a) compulsivo(a), serial. Etc.

A pergunta mais clássica que o amor do outro nos inspira é: “o que foi que ele, ou ela, viu em mim?” A sequência do drama logo revela algo disso: o amor faz o parceiro de “gato e sapato”. Suas variantes mais brandas, mais benignas, vão incluir o ódio como um tempero aceitável, manifesto em ocorrências rápidas, sublimadas, ou focadas – quando se toma o parceiro como “bode expiatório” do próprio mal-estar, que amor nenhum pode jamais eliminar da existência. Escoa-se, purga-se algo desse mal-estar numa explosão de mau-humor com a pessoa amada, numa crise qualquer de ciúme ou de queixa; ambos sabem que aquilo não é sério, que vai passar logo, dando lugar à doçura erotizada na reconciliação. Ambos consentem em usar/ser usado pelo parceiro nesses episódios, com a liberdade desabusada que o amor lhes traz.

Mas existem também as variantes extremadas de amor, perpassadas pela dor em tempo integral. O sujeito não consegue deixar de odiar sistematicamente a pessoa que ama; acusa o parceiro de falsidade, volubilidade, insensibilidade, etc., com ou sem “motivo”. Tem-se às vezes a nítida impressão de que o verdadeiro objeto da acusação, da reivindicação desesperada e impossível, provém de uma “outra cena”, da neurose de infância; está sendo meramente “projetado” na tela da pessoa amada, de forma quase alucinatória. Infelizmente, na maioria dos casos, o amor do presente não se mostra capaz de curar as feridas do amor do passado que ele revive. O mau encontro infantil simplesmente se repete, de amor adulto em amor adulto, assumindo versões semelhantes ou aparentemente diversas, sempre com final “infeliz”.

A sociedade não pode fazer-se cúmplice da criminalidade violenta que certas variantes muito doentias de amor impõem a certos sujeitos. Quanto a eles, a contenção externa, a responsabilização, podem ser condições indispensáveis para que se produza alguma mudança. Um grupo de reflexão, ou mesmo um tratamento analítico, são encaminhamentos possíveis. A criança ferida ou esmagada que o “amódio” expressa precisa ter chance de acolhimento, escuta e reestruturação, para que possa talvez amar de um modo diverso. Mas a complacência e a impunidade em nada favorecerão que se formule qualquer pedido de ajuda: crianças sem limites, de qualquer idade, entregues à sanha dos próprios demônios, não conseguem, por si sós, apaziguá-los. Condenadas à devastação própria e alheia, erraram às cegas, até consumar a sua auto-destruição.