A Psicanálise Morreu? •Imprimir•
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•Escrito por Noêmia Crespo•   
••Qua•, 09 de •Agosto• de 2006 00:00•
Ciclicamente, a mídia traz reportagens sobre o declínio da Psicanálise, seu anacronismo, sua irrelevância; sobre a duração inconveniente de seus tratamentos, a limitação de sua eficácia, a opacidade de sua teoria. Freud estaria superado;  Lacan seria  ilegível. Psicofármacos, terapêuticas focadas na superação dos sintomas, auto-ajuda, psicoginásticas – o mercado agora ofereceria alternativas múltiplas, mais modernas e mais rápidas, para enfrentar o sofrimento psíquico.

A Psicanálise constitui uma espécie de enclave anti-pragmático na civilização moderna. Ela não é uma terapêutica, pois não se propõe a restabelecer um suposto estado anterior de “saúde” que a “doença” teria vindo perturbar. Não se presta a “consertar” o sujeito como se repara um eletrodoméstico em pane, para que ele volte a “funcionar direito”. A recuperação das capacidades de trabalhar e aproveitar a vida do analisante é esperada e desejada, mas não buscada como um fim em si mesmo: deve acontecer, quando for o caso, como uma espécie de efeito colateral do tratamento -  espontâneo, e a seu tempo.

Vivemos numa civilização que nos exige flexibilidade, adaptabilidade, docilidade aos imperativos do mercado. Importa fazer dinheiro, importa consumir. Questões sobre o sentido da existência, ou o que pode fazer a vida valer a pena para cada um, são tidas como irrelevantes – ou como já respondidas pelos ideais da cultura: felicidade é ter dinheiro, ser belo, parecer jovem, ostentar os produtos da moda. Não existe mal-estar que uma boa tarde de compras num shopping não cure, diz um comercial de TV...

Freud, porém, percebeu que os sintomas psíquicos podem ser perguntas que o sujeito se faz a si mesmo, num dialeto cifrado; mensagens em código sobre impasses de ordem ética, onde se confrontam formas de satisfação contraditórias entre si, freqüentemente insabidas. As crises fóbicas, as hipocondrias, os rituais obsessivos-compulsivos, as doenças de fundo “emocional”, as depressões, etc., são expressões de conflitos entre o que se deseja e o que se quer, ou entre o que se deseja e o que é possível, sem que, muitas vezes, o portador o saiba.

Amores e ódios antigos, coagulados e não superados, podem secretamente solapar a capacidade funcional de um sujeito. Num certo momento, inadvertidamente, tal sujeito começa a sentir a própria existência como um fardo, e então seu psiquismo produz uma espécie de greve branca: inibição, sintoma, angústia... Só que as reivindicações em jogo não estão acessíveis à consciência para ser negociadas.

 Alguém pode ser cúmplice da maioria dos danos que sofre, sem saber que o faz, ou porque. Alguém pode buscar na insatisfação um substitutivo de plenitudes míticas. Alguém pode sentir-se compelido a excessos danosos. Alguém pode sentir-se o tempo todo um impostor, ou culpado sem saber de quê. Outro irá atormentar-se pressentindo males de todos os tipos. Etc, etc.

Lacan escreveu nalguma parte que o sintoma é uma questão que o ser se propõe “com” o sujeito. O psicanalista opta por induzir a transcrição e a negociação dessa pergunta em palavras, ao invés de desqualificá-la de antemão, ou esmagá-la sob os imperativos de “cale a boca e funcione”. Não objeta contra o emprego paralelo de recursos paliativos, que possam fazer contenção ao mal-estar e favorecer o trabalho de análise. Só não subscreve a moral do recalque, do nada-querer-saber-disso, em nome da adaptação ou da conveniência social. Não admira que evoque resistências, hoje como nos tempos de Freud.