O Homem sem Gravidade: resumo •Imprimir•
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•Escrito por Noêmia Crespo•   
••Ter•, 04 de •Abril• de 2006 00:00•

Resumo do Livro... O HOMEM SEM GRAVIDADE - GOZAR A QUALQUER PREÇO

Charles Melman - Entrevistas a Jean-Pierre Lebrun. Companhia de Freud Editora - Rio de Janeiro, 2003.


Haveria uma nova economia psíquica em funcionamento. “Estamos lidando com uma situação que nos fez passar de uma economia organizada pelo recalque a uma economia organizada pela exibição do gozo”(16). A que se deveria tal mutação? “O progresso considerável é ter efetivamente considerado o fato de q o céu está vazio, tanto de Deus quanto de ideologias, de promessas, de referências, de prescrições, e q os indivíduos têm q se determinar por eles mesmos, singular e coletivamente. Os últimos 2 séculos foram os das grandes invenções e de identificação dos limites: na matemática, Hilbert, na lógica, Gödel, na política, Marx, em psicologia, Freud e seu Complexo de Édipo. O século que se anuncia será o da suspensão deles: não há mais impossível”

(No plano imaginário. Mas, se não há impossível, não há saúde mental. Ver Lacan, Les Non-Dupes Errent. Sem impossível, o pensamento é trivial... Se tudo é possível, nada é possível. Cai-se na psicose) (Em Matemática, os conjuntos são delimitados pelo impossível de operar neles. Ex - impossível subtrair um número maior de um número menor no conjunto dos números inteiros, dividir certos números por outros no conjunto dos números racionais, tirar raiz quadrada de números negativos no conjunto de números reais, etc. Dizer “não há mais impossível” seria válido se traduzido em “não há mais aceitação do impossível”, “simbolização do impossível”)

Foucault, Althusser, Barthes, Deleuze, “não proclamam mais o direito à felicidade, mas ao gozo”. Na Biologia, o poder de criação foi roubado a Deus. “De uma certa forma, assistimos ao fim de uma época, a uma (...) liquidação coletiva da transferência, o q é a fonte de uma liberdade muito notável” (17) (Liberdade, ou sujeição a um Outro onivoyeur e onipotente, esmagador? Um Outro à la pai de Schreber?) “Não há mais nem autoridade, nem referência, menos ainda saber q se sustente.(...) Estamos apenas na gestão, há práticas”(17)

Menção à exposição de corpos mortos preservados em resina epóxi, técnica desenvolvida pelo anatomista Dr. Gunther von Hagens. Vista por massas em Tóquio, dez milhões e meio de visitantes. Melman toma este fato como ilustração de uma ultrapassagem dos limites - liquidação de conceitos como respeito, piedade, direito à sepultura, sagrado, etc. - em favor de uma mostração, do gozo escópico. Necrofilia, “gozo escópico da morte”. “E, então, a ultrapassagem do que ontem era   tanto proibido quanto impossível” (19) ( Profanação do cadáver autorizada e possibilitada pela Ciência, desde a dissecação. Ver “O Último Selvagem”, filme que denuncia a desumanização e a perda da capacidade de fazer luto do homem moderno em contraste com o primitivo. Diante da Ciência, nada é sagrado. Somos todos devidamente tomados como objetos, reduzidos a objetos, manipuláveis sem qualquer limite... senão os limites, sempre provisórios, do saber e da técnica disponíveis, do estado do conhecimento naquele instante. Um conhecimento expansionário e cumulativo ad infinitum. Um Outro sem barra, portanto - sem barra simbolizada, que só pode encontrar seus limites no real.)

“(...) afinal, nossa relação ao sexo conhece uma mutação semelhante. Até aqui pertencemos a uma cultura fundada na representação, quer dizer, numa evocação, na evocação do lugar onde se mantinha a instância sexual suscetível de autorizar as trocas. Passamos da representação, que nos é familiar, costumeira da relação com o sexo, relação da qual apenas nos avizinhávamos, à - parece - preferência por sua presentação. Como com essa “arte anatômica”, trata-se agora de buscar o autêntico, em outras palavras, não mais uma aproximação organizada pela representação, mas de ir para o objeto mesmo. Se continuarmos nesta linha, o q marca essa mutação cultural é esse apagamento do lugar de esconderijo próprio a abrigar o sagrado, quer dizer, aquilo pelo que se sustentam tanto o sexo quanto a morte. Assim, o sexo é encarado hoje em dia como uma necessidade, como a fome ou a sede, agora que estão suspensos tanto o limite quanto a distância próprios ao sagrado que o albergava.” (20) (A “arte anatômica” é uma morte que está e não está ali, ao modo perverso. O corpo preservado da putrefação, entregue a uma violação infinita pelo olhar, lembra o fantasma sadeano. O real do apodrecimento permanece cuidadosamente encoberto para não produzir horror. Na sexualidade se passa o mesmo. Não se trepa com um pedaço de carne, não se faz um ato fisiológico, se trepa com um semblante, com uma imagem apoiada na fantasia, ou não há tesão que se sustente. Senão, qualquer pedaço de carne valeria por qualquer pedaço de carne. Mesmo entre os animais, o imaginário recobre o real na copulação -  é preciso que haja iscas, gatilhos que desencadeiem o coito: danças nupciais, cheiros, cores, sons etc. Penso que o que estamos vivendo é antes um esvaziamento do simbólico em favor do imaginário no ordenamento da sexualidade, mais um acirramento do imperativo de gozo. Mas “é a criança que é alimentada com mais amor que responde com a anorexia”, lembra Lacan. O levantamento das proibições gera tédio e desinteresse, mais do que frenesi. O desejo se protege do esmagamento na necessidade refugiando-se na afânise. Não há Viagra que funcione sem “desejo pela parceira”. Desejo não se vende em caixas de remédio, ainda. Haveria liquidação do semblant no sexo se todos estivessem gozando com estimulação elétrica direta aos centros cerebrais que comandam o orgasmo, por exemplo - orgasmotrons de bolso...)

“(...) o que acaba por se ver perdido é o q Lacan chama de objeto a, a causa do desejo, esse objeto perdido inicial cujo caráter fugidio entretém a busca de nosso desejo. No mesmo movimento (...), desaparece o sujeito como animado por essa busca, o sujeito como sujeito do inconsciente, aquele que se expressa nos sonhos, nos lapsos, nos atos falhos. Pois, afinal de contas, a descoberta de Freud, se há uma, é nos ter permitido verificar (...) que a relação do sujeito com o mundo, como também c ele mesmo, n é organizada pelo q seria uma ligação direta e simples c um objeto, como no mundo animal, no qual basta se deixar guiar pelos instintos (mas os animais tb n se guiam pelo objeto real, e sim pelas imagens desencadeadoras, podendo ser inclusive tapeados por apitos, iscas artificiais, etc.).

– “(...) nossa relação c o mundo e c nós mesmos n é instalada por um objeto, mas pela falta de um objeto, e de um objeto de eleição, essencial, de um objeto querido, já que, na figuração edipiana, por ex., é da mãe q se trata. É preciso, para esse infeliz sujeito humano, passar por essa perda a fim de ter acesso a um mundo de representação sustentável para ele, em q seu desejo seja simultaneamente alimentado e orientado e suas identificações sexuais quase asseguradas. (Já para isso, a função do pai é ineliminável.) “Somos os únicos, no reino animal, cuja possibilidade de realização sexual é organizada por uma dissimetria, já q a escolha do objeto n é regulamentada por uma identificação dos traços característicos do pareceiro, parceiro do sexo oposto, ou por odores específicos, mas pela perda, pela renúncia ao objeto amado. É preciso essa disfunção para que, no ser falante, o sexual possa se cumprir, é preciso q haja acesso a um semblante, aum fac-símile./ (...) Evidentemente, vê-se de q maneira essa perda instala um limite e como esse limite tem a propriedade de manter o desejo e a vitalidade do sujeito. O pai, contrariamente a uma abordagem simplista da situação edipiana, n é tanto aquele q interdita qto aquele q dá o exemplo da ultrapassagem autorizada do limite p cumprir o desejo, o desejo sexual. Todo mundo sabe bem q o cumprimento do desejo sempre tem esse aspecto momentaneamente fora da norma, algo transgressivo./A função do pai é, então, colocar o impossível a serviço do sexual”(22) (Bom, só que a interdição também é fundamental. O pai interdita primeiro o Outro, proibindo-o de consumir seu produto, reintegrá-lo. Ele cifra o desejo do Outro com a significação do falo e “pacifica” o Outro, não se deixa devorar pelo Outro; constitui e sustenta o próprio desejo, faz do Outro um outro, reduz o Outro a um semblant de objeto de seu desejo, aborda-o impunemente... servindo, aí, de exemplo, na medida mesma em q transgride a proibição que sustenta, operando como exceção. Recobrindo o impossível com o proibido, possibilita um acesso a um semblant do objeto perdido pela fantasia da transgressão. Na fantasia, sonhamos que o objeto não é impossível, só proibido; não seria proibido se não fosse possível...)
   
Melman acusa Freud desse mal-entendido sobre a função do pai, que o situa sobretudo como interditor. Menciona o declínio social da figura paterna.  Menciona a licença-paternidade, lei q entrou em vigor na França em 2002 e que “pegou” bem depressa (ver nota de rodapé), mas diz que “essa nova possibilidade, paradoxalmente, os subjuga (aos pais) ao q será, ainda, uma função de tipo materno” (embora em RSI Lacan mencione o cuidado com os filhos como parte da função do pai). Interpreta os nacionalismos e fundamentalismos como um amor enlouquecido pela figura paterna - isso expressaria “uma espécie de vocação dos filhos, dos jovens, para restituir, reinstalar essa figura sob uma forma consistente. Esse pai aí n se deixaria construir /ou desnconstruir??/, seria um pai q tem, um pai de costas largas, sólido”. Enfim, a mutação q promove a NEP resultaria de q todo limite está caduco – “não há mais dificuldade em ultrapassá-lo” (11).
   
Cinema n significa mais nada, só mostra, exibe. Big Brothers na TV: “O q se chama de gosto pela proximidade vai t longe q é preciso exibir as tribas, e o interior das tripas, e o interior do interior. N há mais limite algum à exigência de transparência. (...) As pessoas se desnudam diante das câmeras c um impudor q n seriam forçosamente capazes de manifestar no consultório de um médico, por ex. A presença das luzes e das câmeras age como um imperativo diante do qual ninguém poderia recusar-se, como se estivesse diante de um torturador a quem conviria confessar tudo, inclusive o q n se fez. / (...) O olhar é, hoje, essa espécie de torturador diante do qual nada pode ser dissimulado.”(23) Caça do jornalismo ao escabroso e ao escândalo. Infantilismo de uma pan-escopia. Linguagem se torna mais “icônica” pela Internet. Perde-se a função da metáfora. Seria uma linguagem denotativa, sem equívoco, nua e crua (Mas na Internet, ao mesmo tempo, o que mais rola é mentira, fantasia, etc. Depois, convém lembrar que o público leigo, o “povão”, sempre foi muito limitado de vernáculo. As figuras de linguagem nasceram como divertimento dos poderosos, como a oratória dos gregos e romanos, os maneirismos das preciosas, etc. Ao q parece, os poderosos de hoje podem prescindir desse tipo de signo de status, pois contam com outros. Marx já denunciava q os burgueses eram salsicheiros incultos...)
   
Há um declínio dos lugares do respeito, do sagrado e da autoridade. “No q era a nossa cultura, a conjunção entre o lugar da autoridade e o lugar do sagrado parecia natural. O lugar de autoridade era simultaneamente o lugar de esconderijo da divindade  e justamente o lugar de onde os mandamentos podiam se autorizar. A conjunção n era problema para ninguém; é por isso aliás, q durante séculos o poder foi teológico-político. A política era fundamentalmente teológica, pois o poder, por delegação, vinha de Deus. As repúblicas laicas nunca se desembaraçaram totalmente dessa herança” (25)(Ver o caso dos EUA. Para Godelier, aliás, na modernidade, a política teria tomado o lugar do sagrado.)  Mesmo esvaziado o Céu, o sagrado estava em algum lugar - por ex, na idéia de Pátria. Agora, o político está esvaziado - escolhem-se gestores, síndicos. N há mais palavras de ordem nem projetos. “É justamente esse lugar q se encontra liquidado, o da instância fálica.”(26) Cita romances onde se fala de uma eliminação do sexo, através da biologia e da fecundação artificial.
   
“Eis, ainda, um traço da nova economia psíquica: n há mais divisão subjetiva, o sujeito n é mais dividido. É um sujeito bruto. Falar de sujeito dividido é já dizer q ele se interroga sobre sua própria existência, q ele introduz em sua vida, em sua maneira de pensar uma dialética, uma oposição, uma reflexão, uma maneira de dizer: “Não!” Hoje em dia, quase n vemos a expressão do que seria a divisão subjetiva.” (27) (Antes, existia o problema da legitimação da própria existência, do pecado, etc. Agora, parece que as respostas se antecipam às perguntas sobre como fazer a vida valer a morte que custa.
Em primeiro lugar, a morte virou um saber recalcado. Em segundo lugar, os gadgets se oferecem como a encarnação por excelência do desejável.. A divisão subjetiva só aparece cifrada na inibição, no sintoma, na angústia, nas adicções e na psicossomática - os famosos adoecimentos com “fundo emocional”, ou por “estresse”..)
   
Seria possível um comportamento predeterminado, onde estivesse eliminada a dimensão da escolha. Mas, aí, tudo seria possível, e n se saberia a diferença entre sonho e realidade (28). “Esse progresso de q estou falando - e n utilizo este termo de maneira irônica, já q n há nenhuma razão para n inscreve-lo nesse registro - é homogêneo ao da nossa economia. Esta, c efeito, é capaz de nos fornecer objetos sempre mais fantásticos, mais próprios a nos fornecer satisfações, tanto objetais qto narcísicas.” Daí o declínio do semblant em favor de objetos “autênticos” (mas n seriam muitos deles próteses fálicas?) Teoria cognitivista: “organizada c base nesse princípio. A aprendizagem direta dos caminhos de acesso, tanto ao objeto qto a si mesmo, deve assegurar uma trajetória quase feliz e sem complicações”. Isso simplificaria a vida:  “Para ter acesso à satisfação, n é mais necessário passar pelo disfuncionamento q eu evocava e q é, é claro, fonte de neurose, ou de psicose” (a psicose decorre do disfuncionamento do disfuncionamento, de uma n extração do objeto a, e a NEP de Melman me lembra o tempo todo da psicose!)N haveria mais problemas de identificação sexual, a necessidade de tomar um lugar no campo dos deveres, inclusive dos “deveres de memória”(?)
“Hoje, o sexo pode ser tratado como um gozo orificial ou instrumental como os outros” (29) Agora, todas as paixões são legítimas, exceto a pedofilia. Mas “nunca se pensou tão pouco”(29) Os casamentos estariam enfrentando uma crise - ausência de convenções, referências tradicionais ao papel de cada um, etc., levando a uma necessidade de pactuação permanente (O incrível, nesse contexto, é q as pessoas ainda se casem. Melman n parece perceber o paradoxo. Se vale tudo, por q o casamento, q é ainda uma instituição, onde estão implícitos deveres mútuos?) O homem é um animal desnaturado, sem objeto adequado. “Essa NEP tem precisamente a ambição de corrigir esse “defeito”. A grande filosofia moral dos dias de hoje é q cada ser humano deveria encontrar em seu meio com o que se satisfazer, plenamente. Se n for assim, é um escândalo,um déficit, um dolo, um dano. Assim, qdo alguém expressa uma reivindicação qualquer, está legitimamente no direito./ (...) Na realidade, volta-se à filosofia inglesa sensualista do século 18.(...) Por q, aliás, n teríamos o direito de encontrar em nosso meio o q nos pode satisfazer, quaisquer q sejam os nossos costumes? Se um casal homossexual deseja se casar, a tútulo de q nos oporíamos? Se um transexual pede uma mudança de identidade, a q autoridade vc se referiria p recusa-lo?” (31)
   
Indústria produz objetos capazes de saturar orifícios visuais e auditivos (?). “Então, o gozo sexual n constitui mais referência, n constitui mais borda” / N constitui mais borda e n constitui mais, em todo caso, padrão para os gozos. Doravante, já n há mais padrão para os gozos, como para as moedas? (32)
   
J.-P. Lebrun – “Nós nos encontraríamos como que arrastados por um movimento voluntarista: agora que, com a psicanálise, identificamos os mecanismos e o funcionamento da realidade psíquica, poderíamos pensar ser capazes de fabricá-la. Isso, decerto, não é realizável! O voluntarismo não nos permite passar do imaginário ao simbólico.  Só pode acabar num reforço do imaginário”(33-34)
   
Melman: “A função do pai é privar a criança de sua mãe e assim introduzi-la nas leis da troca; em lugar do objeto querido, a criança deverá compor, mais tarde, com um semblante. É essa operação q prepara a criança para a vida social e a troca generalizada q a constitui: trate-se de amor, então, ou de trabalho. Mas o problema do pai, hoje,, é q não há mais autoridade, função de referência. Ele está só e tudo convida, de qualquer modo, a renunciar a sua função e simplesmente participar da festa. A figura do pai se tornou anacrônica” (Melman, 34)
   
“O desejo, hoje, se mantém mais pela inveja q em referência a um suporte ideal. Em outras palavras, é sobretudo dependente da imagem do semelhante enquanto o semelhante possuidor do 0bjeto ou dos objetos suscetíveis de suscitar minha inveja. O desejo, normalmente, é organizado por uma falta simbólica. Mas a falta q se instala na relação c o semelhante é apenas imaginária. Para ser simbólica, seria preciso estar relacionada a alguma instância Outra na qual encontraria sua justificação.” Na atualidade, haveria um gozume generalizado e uma aspiração igualitária. Isto tenderia para uma liquidação da referência à instância fálica, vivida até então como a grande ordenadora de toda a nossa organização psíquica. (35)
   
“O progresso inegável é ter apreendido que o céu está vazio, que no Outro não há ninguém e não há nada.”(...) “Até aqui, o progresso sempre consistiu em empurrar sempre para adiante os limites do poder da ciência e, de um modo notavelmente sincrônico, os interditos da moral. Mas num e noutro campo, esses limites hoje não têm mais verdadeira consistência, a não ser efêmera: é a contpartida do sucesso. De modo q o progresso n conduz a terra firme, na qual, ao menos por algum tempo, se organizaria uma vida mais fácil, mas a zonas pantanosas, q só servem de suporte para subjetividades incertas e lábeis, eventualmente ansiosas por encontrar um solo firme. À toda, o expresso Progresso corre assim para um destino n identificado.  Seria preciso, entretanto, q nos interrogássemos sobre esse destino. Em vez disso, simplesmente tiramos proveito desse progresso, de uma forma q escamoteia as lições q se deveria tirar. Constatar q o Céu está vazio, dizer q n há nada no Outro n quer dizer q o Outro esteja abolido. Confundimos. O Outro continua Outro, continua nosso parceiro, meso q n haja ninguém para lhe conferir autoridade. E é dali q operamos o pequeno deslocamento q mistura tudo” (36).
   
Que poderia fazer a psicanálise? “Como de hábito, ela n pode fazer nada, em todo caso n diretamente. Além disso, a psicanálise até mesmo contrituiu p esse estado de fato, por sua difusão no meio social. Houve uma interpretação da psicanálise freudiana q conduziu a essa situação, q lhe serviu de ideologia. É bem evidente q a psicanálise lacaniana, em troca, n pode ser questionada nesse aspecto, ao contrário, a ponte até de os lacanianos, como vc sabe, serem cada vez mais apresentados hoje como reacionários, o que é bastante
engraçado?(!!!!) (36-37) (O movimento verde, ambientalista, é conservador. A psicanálise tb o seria se se situasse como uma espécie de ecologia do tipo de ambiente RSI capaz de viabilizar e nutrir uma subjetividade tolerável.)
   
“Na difusão do ideal de Freud, isto é, q o “mal-estar na civilização?está ligado ao caráter excessivo das restrições morais tal como ela as impõe. Freud deve se regozijar por ter sido entendido. O mal-estar na civilização estava ligado, para ele, à repressão excessiva q ela exercia sobre as pulsões sexuais; é claro q hoje, a suspensão maciça do recalque e a expresão crua dos desejos poderiam te-lo curado. A partir do momento em que a moral sexual é atenuada, cada um pode se encontrar bem melhor em seu mundo. O que, ao mesmo tempo, o torna sem interesse!” (No entanto, em várias passagens, Freud sugere que a interdição é uma borda necessária para a constituição do desejo.

Ver “Sobre uma Degradação Geral da Vida Erótica”, e o próprio Mal-Estar, onde a felicidade é definida como satisfação, de preferência repentina, de “necessidades represadas em alto grau”; sem represamento, nada de felicidade!)
   
Como agora se pensa a realidade como portadora compulsória da felicidade perfeita, exceto casos circunstanciais de dolo, a realidade se teria tornado virtual.(37)
   
No que tange ao problema da autoridade, haveria o risco de um retorno consentido ao fascismo, ao despotismo, “pois a situação atual n é sustentável”. Haveria um despotismo da ideologia do prazer absoluto: “Tornou-se extremamente difícil fazer valer uma posição que n seja correta, ou seja, uma posição q n vá no sentido dessa filosofia implícita q quer q qualquer pessoa, seja qual for seu sexo, sua idade,possa ver seus votos cumpridos, realizados, nesse mundo. Toda reflexão q busque discutir esse implícito é, a priori, barrada,
interdita.”(38) (Ditadura da liberdade e do gozo, do tamponamento de toda falta pelo suposto-saber-fazer-gozar!).
   
Estaria havendo uma flexibilização, uma “fuidificação” dos sujeitos. Adaptabilidade infinita. “O sujeito, assim, perdeu o lugar de onde podia fazer oposição, de onde podia dizer: “Não! Não quero!”, de onde podia se insurgir.(...) Ora, nos dias de hoje, o funcionamento social se caracteriza pelo seguinte: os q dizerm “não!” em geral o fazer por razões de categoria, corporativistas. A posição ética tradicional, metafísica, política, q permitia a um sujeito orientar seu pensamento diante do jogo social, diante do funcionamento da Cidade, pois bem, esse lugar parece notavelmente faltar” (39) (“Primum vivere”
toma completamente o lugar das razões de existir. Trata-se de vegetar gozosamente, burra e alegremente, deixar-se apascentar, adubar e manipular sem limites. Lógica da drogadicção. Anorexias, depressões, tédios, doenças por “estresse”, “pânicos” e afânises do desejo ainda protegem algo do sujeito, ao modo histérico, no plano da insatisfação.) Ninguém mais quer perder nada nem pagar preço nenhum, ser alguma coisa renunciando ao que não é.
   
No plano do eu, a validade da própria presença no mundo estaria agora vinculada à exigência de altas performances - econômicas, sociais, etc. “Na falta da referência, do referente -  seja ele ancestral ou n, pouco importa - q permite ao sujeito afirmar sua validade e sua continuidade, seu tônus, a despeito dos avatares de seu destino social, esse reconhecimento vem evidentemente a faltar. O eu se vê exposto, frágil, deprimido, pq seu tônus n está agora organizado, garantido, por uma espécie de referência fixa, estável, segura, por um nome próprio, tendo necessidade de ser confirmado incessantemente”.

“Se não há mais instância ideal, seu tônus dependerá do aleatório, das circunstâncias.” Infortúnios levam o sujeito a se sentir facilmente desabonado e carente de tudo. “O q se torna referência do eu n é mais a referência ideal, é a referência objetal. E o objeto, contrariamente ao ideal, para ser convencido, exige q n se pare de satisfaze-lo” ( N sei se concordo. O supereu é o ideal acoplado a um objeto, a voz, e ao olhar... Os antigos n estavam autorizados a fraquejar, mas isso n quer dizer q se sentissem muito melhor q os modernos c todos os seus ideais de honorabilidade e dignidade. As depressões foram descritas e mesmo induzidas pela indústria farmacêutica, q criam demanda c sua oferta de panacéias da alma.)” Resta um lugar para o ics num mundo em q a liberdade total de expressão numa cena iluminada por todos os lados dispensa recalque? Freud teria se regozijado em ver se cumprirem suas recomendações higiênicas (de novo, um achatamento do pensamento de Freud). No entanto, a emergência desse novo sintoma, a depressão, no lugar das neuroses de defesa (Melman esquece o “pânico”), não teria deixado de reter a atenção dele. Com efeito, a carência das identificações simbólicas só deixa como recurso, para o sujeito, uma luta incessante para conservar e renovar insígnias cujas desvalorização e renovação são tão rápidas quanto as evoluções da moda, e isso enquanto ele mesmo está inexoravelmente entregue ao envelhecimento, como seu carro.” (Efetivamente, numa economia menos veloz, menos tomada pelo imperativo da reprodução ampliada, as insígnias identificatórias tradicionais podiam ter mais força. Ex. - família, profissão, religião, etc.”Sou bacana porque sou filho e neto dos Fulanos, sou bacana porque sou um bom cristão, sou bacana porque sou um bom sapateiro, sou bacana porque pratico o bem, ou porque não transgrido os Mandamentos”... Nada disso vale hoje. “Sou bacana porque sou sarado”, “Sou bacana porque tenho um carro importado”, “sou bacana porque visto Zegna”. E ai de mim se não tiver esses adereços!).

Risco do desejo se asfixiar no objeto adequado a satisfazê-lo. Tendência a só valorizar o q não se tem, o que falta, a mulher perdida, etc. “O pensamento é poluído pelo que ele se recusa a descartar e conserva na pura contradição” (a tal recusa da coerência, que se encontra no personagem de Woody Allen em Desconstruindo Harry: a canalhice resulta de que ele se autoriza tudo e não admite perder coisa alguma).(Mas a exigência da mulher e da amante, que Melman cita, é mais velha que a Sé de Braga. Os machões brasileiros, além das amantes, tinham quantas putas quisessem, sem que isso lhes fosse censurado. A diferença é que, agora, as mulheres também entraram na “festa”.)
   
Seria viável esse voluntarismo da felicidade secular? “Será q tudo isso depende, em última instância, apenas do nosso querer? Temos, efetivamente, a possibilidade de transformar, de modificar as leis como quisermos? A igualdade, por ex., é tediosa. Num relacionamento, mesmo homo, surge uma assimetria, que “faz com q um n esteja no mesmo lugar q o outro”(42). “A questão q esse pequeno exemplo destaca é q, quaisquer q sejam as leis em vigor, há em algum lugar alguma coisa q faz com q disposições n possam assim ser ultrapassadas simplesmente pelo fato de nosso querer, de nossa coragem, de nossa vontade. Onde estão essas outras leis - a Lei -  q n vemos e q, entretanto, se impõem a nós? Será q n seriam essas leis o suporte q constitui nossa humanidade, do q nos especifica no reino animal? Será q n seriam essas?/ Pois há efetivamente leis de q somos tributários e sobre as quais a descoberta freudiana mostra, notadamente através da prática da psicanálise, que são as da linguagem, enquanto esta é própria dessa espécie bizarra q se chama espécie humana. Não podemos, seja qual for a qualidade de nossos votos, decidir à nossa maneira.” (43) Seria preciso escolher entre a “existência parcimoniosa e difícil” dos antigos e “essa existência luxuriosa, para n dizer de luxúria,q nos parece doravante permitida?” A partir da experiência do psicanalista, poderia resultar algum progresso “de um trabalho sobre o q essas leis da linguagem implicam, a maneira como elas se impõem a nós, os tipos de inscrição de que nos tornam dependentes. Pois essas obrigações, essas leis q até aqui intrepretamos como definitivas, podem desembocar em possibilidades, horizontes, escritas outras. Então, é por um trabalho sobre o q parece nos determinar em última instância que poderíamos esperar encontrar saídas para estabelecer relações com o mundo e consigo mesmo que permitam escapar a essa escolha, a esse tipo de dilema. Assim estaríamos talvez menos expostos a revezes, ao retorno das chamas (como o  de um possível retorno do autoritarismo, da servidão voluntária, que historicamente sempre teria respondido a uma tal valorização do gozo).” (43 - 44)

Para Melman, a castração não seria obrigatória, resultado necessário das leis da linguagem. Linguagem produz buraco, desrealiza o objeto; mas n é necessário q esse buraco se conecte ao sexual. Melman se interroga se o “fato do significado ser sexual” resulta da linguagem como tal, ou da religião. Aposta na religião, no monoteísmo, que teria instituído a inexistência de relação sexual (como se ela existisse, por ex., entre os ditos primitivos, ou mesmo entre os animais! Como se tb aí o semblante não dominasse tudo, amarrado pela cultura, pelos interditos, pelos mitos, etc.! Acesso ao objeto mesmo, só na drogadicção...)

Melman se diz incapaz de categorizar como “um bem” ou como “um mal” as transformações da contemporaneidade - simplesmente, “é assim” (48) . E se contradiz, pois se essas transformações transgridem certas leis da linguagem, elas podem estar levando a uma desumanização, uma desespecificação! As drogadicções, seriam um “bem” ou um “mal?” À luz de que referências?
Na clínica: aparece um esmaecimento da culpabilidade, há menos frigidez. Mas “tudo o que é ganho de um lado é pago de um outro”(esta seria uma das tais leis da linguagem, com as quais os modernos não querem se conformar!)

Dado o desmoronamento da autoridade, dos modelos prontos e da hierarquia, hoje, casais, e mesmo professores, passariam a maior parte do tempo negociando os deveres e direitos mútuos... (48).

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