Vingança Violenta •Imprimir•
•Escrito por Noêmia Crespo•   
••Seg•, 04 de •Fevereiro• de 2002 00:00•

PROJETO  DE  PESQUISA: UFES

VINGANÇA VIOLENTA EM COMUNIDADES POBRES DAS PERIFERIAS URBANAS BRASILEIRAS: 
UM OLHAR PSICANALÍTICO

OBJETIVO GERAL:
Elucidar a lógica subjetiva de certas modalidades recorrentes de conduta violenta, geradoras de homicídios ou  lesões corporais, no contexto dos bairros pobres das grandes cidades brasileiras.

OBJETIVO ESPECÍFICO:
Aplicar o referencial teórico da Psicanálise para entender a dinâmica subjetiva que desemboca, em certas circunstâncias “fecundas”, na irrupção de condutas violentas (especialmente as desforras, ou “acertos de contas”, por assassinato ou espancamento), em  populações marginalizadas dos grandes centros urbanos brasileiros. Investigar como estas populações percebem e avaliam, no plano ético-moral, as vinganças violentas contra os agentes de diversos tipos de dano e ofensa (da “traição” amorosa ao não-pagamento de dívidas). 


RESUMO DO TRABALHO:
O aumento vertiginoso nos índices de violência nas grandes cidades brasileiras tem alarmado cidadãos e autoridades, tornando-se um tópico de destaque na agenda política nacional. Programas de segurança pública e de combate à violência têm sido discutidos, delineados e implementados em diversos níveis e em diversas frentes, por organizações governamentais e não-governamentais. Ao mesmo tempo, diversos pesquisadores vêm investigando a lógica e a dinâmica da violência urbana entre populações marginalizadas (visto ser nos bairros mais pobres que se concentram as mais altas taxas de assassinatos e graves lesões corporais). A maior parte deste esforço de pesquisa tem-se centrado na problemática da delinqüência – causas e desdobramentos da entrada de jovens e adultos pobres em carreiras marginais – tendo sido publicados, nos últimos dez anos, importantes trabalhos sobre o tema (ver Abramovay, 1998; Assis, 1999; Alvito, 1998; Guimarães, 1998; Zaluar, 1994).


Contudo, a leitura das páginas policiais dos maiores jornais brasileiros – e de um importante escrito, declaradamente baseado em acontecimentos reais, que retrata a violência no cotidiano de uma comunidade pobre do Rio de Janeiro (“Cidade de Deus”) – levou-nos a perceber que uma parcela significativa dos homicídios ou lesões corporais graves resultam de episódios que podem ser englobados na definição “desforra violenta contra um dano vivido como humilhação intolerável”: acertos de contas efetuados, muitas vezes, por pessoas desvinculadas de quadrilhas ou “galeras”, e sem antecedentes criminais. Nesta rubrica, incluiríamos as vinganças de cunho passional, contra os “traidores” (parceiros(as),  rivais, e seus familiares); castigos infligidos a desafetos, resultantes de  “rixas” diversas; e atos violentos motivados por dívidas financeiras (podendo ter como agente o credor ou devedor). Em alguns casos, chama a atenção a aparente desproporcionalidade entre o montante da dívida (ou a dimensão do ato “ofensivo”) e a dureza da revanche (quando um dado sujeito assassina um amigo que não pagou um empréstimo de cinco reais, fere a bala um vizinho que tomou a pipa de seu filho, espanca um conhecido que zombou do  mau desempenho de seu time no jogo decisivo do campeonato, etc. - episódios como este são recorrentemente noticiados nas páginas policiais).

É importante assinalar que esse tipo de episódio não ocorre apenas entre populações de baixa renda, situadas em bairros de periferia (bem como, aliás, a entrada em carreiras delinqüentes, violentas ou não). Contudo, a concentração dos maiores índices de homicídio e lesão corporal per capita nas comunidades pobres sugere que a chamada “cultura da violência” encontre na exclusão social um terreno especialmente fértil para o seu desenvolvimento – onde as desforras violentas contra danos vividos como humilhação intolerável também tenderiam a multiplicar-se.

Aqui, ao pesquisador interessado em entender o fenômeno da violência urbana, impõem-se as seguintes questões: como os fatores econômicos e sociais que incidem sobre as populações marginalizadas das grandes cidades brasileiras confluiriam para alimentar o imperativo categórico do  “não levar desaforo para casa”? Existiria, nos bairros pobres e favelas, uma ideologia legitimadora/incitadora do resgate da honra pela violência privada? Como entender a dinâmica subjetiva da vingança contra o dano vivido como humilhação intolerável?

Acreditamos que o referencial teórico da Psicanálise pode – e deve – contribuir para o enfrentamento dessas questões. O objetivo geral do presente projeto de pesquisa é elucidar  a lógica subjetiva da passagem ao ato violento, contextualizado às circunstâncias sócio-econômicas e culturais dos bairros pobres das grandes cidades brasileiras – à luz dos conceitos desenvolvidos por Freud e Lacan em seu esforço para entender o  pathos da condição humana. Será uma empreitada trans-disciplinar, na interface entre Psicanálise e Ciências Sociais. Tal enfoque, a nosso ver, se justifica pela necessidade de se fazer uma análise o mais “fina” e detalhada possível do fenômeno da violência urbana – para referenciar a formatação de estratégias institucionais e políticas o mais possível “refinadas”, capazes de canalizar as energias da violência e da “guerra particular”  a objetivos mais fecundos em termos de realização pessoal e transformação social.  

Nossa aposta na necessidade, e na viabilidade, de aplicar-se o referencial teórico psicanalítico para um melhor entendimento do fenômeno da violência foi recentemente reforçada pelos resultados de pesquisa da OIT sobre as motivações da escolha da carreira de “soldado do tráfico”  por crianças de favelas cariocas: “identificação com os líderes do tráfico”  e  “desejo de viver emoções fortes” (ou seja, motivos eminentemente “psicológicos” e subjetivos) apareceram como as razões mais recorrentemente alegadas pelos informantes para sua entrada na rota  (quase sempre curta e sem retorno) do tráfico de drogas.

METODOLOGIA:
Análise de textos, documentos e depoimentos que expõem a vivência de sujeitos oriundos de populações marginalizadas das periferias urbanas brasileiras, envolvidos em episódios violentos caracterizáveis como desforras ou acertos de contas. Entrevistas com moradores de bairros pobres, assolados por altos índices de violência (homicídios e lesões corporais), da Grande Vitória.

PRAZO:
Doze meses (junho/2002 a junho/2003).

 

BIBLIOGRAFIA:

ABRAMOVAY, M. (1998) – Gangues, Galeras, Chegados e Rappers: juventude, violência e cidadania nas cidades da periferia de Brasília. Brasília, Garamond.

ASSIS, S.G. (1999) – Traçando Caminhos de uma Sociedade Violenta: a vida de jovens infratores e de seus irmãos não infratores. Rio de Janeiro, Fiocruz/Unesco.

ALVITO, M. (1999) – “Um Bicho de Sete Cabeças”. In Zaluar, A., e Alvito, M (Orgs.), Um Século de Favelas. Rio de Janeiro, FGV.

GUIMARÃES, E. (1998) – Escola, Galeras e Narcotráfico. Rio de Janeiro, UFRJ.

LINS, Paulo (2000), Cidade de Deus. S. Paulo, Ed. Companhia das Letras.

SOUZA E SILVA, J. e URANI, A. (2002), Brazil Children in Drug Trafficking: A Rapid Assessment. Internacional Labour Organization,  Genebra.

ZALUAR, A. (1994), Drogas e Cidadania: Repressão ou redução de riscos. S. Paulo, Brasiliense.