Admirável Mundo Novo: rumo à remodelagem neuroquímica da alma? •Imprimir•
•Escrito por Noêmia Crespo•   
••Ter•, 04 de •Novembro• de 2008 00:00•
O amor, descobriu-se, é um evento neuroquímico. O ódio também, que aliás se manifesta nos mesmos circuitos neuronais do amor. O escaneamento da atividade cerebral de sujeitos confrontados com fotos de seus objetos de paixão não exibe resultados muito diferentes dos que emergem da bisbilhotagem dos neurônios em sua resposta à visão de fotos de pessoas odiadas.

Cedo ou tarde, os neurocientistas descobrirão meios de fazer uma análise diferencial desses padrões de funcionamento. Mas isso de qualquer maneira não pode calar a pergunta: é a neuroquímica cerebral a causa do amor passional e do ódio?

Amor e ódio não são eventos neurais de desencadeamento endógeno. Resultam de interações ambientais do nosso sistema nervoso, tais como nossas memórias. Fazem sentido, ou parecem fazer, como resultantes de experiências vividas; são coerentes, são inteligíveis. Não se comparariam, então, com outro tipo de eventos, que por seu caráter aberrante, disruptivo e incompreensível, só poderiam resultar de disfunções internas dos circuitos neurais: transtornos emocionais e comportamentais, como hoje é moda chamar as fobias, as compulsões, as angústias, os atos e pensamentos obsessivos, as depressões, etc. - sem mencionar os fenômenos psicóticos, tais como delírios e alucinações. Um sistema nervoso normal, funcionando de forma saudável, pensam alguns, não exibiria os padrões de atividade neural que se traduzem naqueles tipos de pertubações psicopatológicas. Daí a esperança de que uma intervenção nesse nível, uma correção neuroquímica dos padrões de atividade neural, pudesse resultar na remissão daqueles transtornos.

Perguntamo-nos se, então, será possível manipular desse modo o amor e o ódio, também.  Afinal, é corrente a queixa de que amamos de forma errada, ou as pessoas erradas. O ódio, esse também não é muito bem tolerado, por mais que resulte de interações inteligíveis (ou pretensamente inteligíveis) com as pessoas odiadas. Amar e odiar se e quanto quiséssemos, a quem quiséssemos, do modo que quiséssemos, pelo tempo que quiséssemos... bastando para isso realizar uma intervenção farmacológica finamente dirigida em nossos circuitos neurais! Seria a felicidade! Ou não?...

Surgem aí algumas inquietações. Usos autoritários dessa tecnologia, se ela fosse disponível, causam arrepios. Imaginem um tirano com o poder de manipular o amor e o ódio de seus concidadãos, inclusive inimigos de Estado... É poder demais.

Já existem cientistas oferecendo retificação neuroquímica de memórias traumáticas. Trata-se de tecnologia extremamente útil para amenizar o horror, a culpa, o estresse, de soldados que retornam de guerras, massacres e atrocidades. Logo disponibilizarão protocolos para lobotomia farmacológica de lembranças desagradáveis – excelente para ministrar a prisioneiros que tenham sofrido torturas, por exemplo.

Mesmo um emprego consentido desse tipo de tecnologia, expressamente demandado pelo consumidor, desperta questões. Até que ponto esse consumidor deseja mesmo o que demanda? Deve o médico fazer tudo o que lhe pede o seu paciente? E se forem intervenções irreversíveis? Queremos mesmo ter esse poder desmesurado em nossas mãos? Cada um de nós, se pudesse ser entronizado na posição de déspota absoluto da pólis, com poderes de vida e de morte sobre todos os seus súditos - sem limites de espécie alguma -  gostaria de assumir esse lugar? Julgaria estar preparado para isso? E entronizar o que queremos, ou julgamos querer, para nós mesmos, nessa posição de déspota absoluto da economia psíquica... mandar completamente em nós mesmos... determinar completamente o que sentimos... fazermos de nossos afetos os escravos de nossa razão consciente... será que isso seria nossa libertação? Ou seria o auge de nossa servidão? Não resultaria disso o achatamento de nossa complexidade mental, afetiva e cognitiva, dos seus paradoxos, enigmas e contradições, tão ricos e fecundos, a uma linearidade apática? Não nos tornaríamos zumbis? Não estaríamos assim substituindo a selva de nossos pensamentos sabidos e insabidos, toleráveis e intoleráveis, a amazônia conflituosa de nossas paixões, por uma monótona plantação de espécies pretensamente úteis, monocultura de plantas arrumadinhas e cheirosas – sacrificando assim toda uma bio-diversidade, uma neuro-diversidade, uma psico-diversidade?

Poderiam argumentar que a manipulação neuroquímica de pensamentos e afetos seria eticamente aceitável, e desejável, quando se tratasse de eventos psicopatológicos, espúrios, insensatos, para os quais se tivesse determinado uma causação exclusivamente endógena. Ocorre que até essa dicotomização segregativa de normal e patológico, no que tange a eventos psíquicos, é objeto de discussão. E se as fobias, os pânicos, as compulsões, as obsessões, os delírios, as alucinações, as fixações sexuais, etc., fossem tão inteligíveis, e resultassem de interações ambientais, tanto quanto os pensamentos e afetos considerados não patológicos? Essa, como se sabe, foi a tese defendida por Freud: os sintomas, a inibição e a angústia, têm um sentido. Têm uma causa psíquica, relacionável à interação do sujeito com seu Outro, isso é, o que se chama a interação do sistema nervoso com o seu “ambiente”.

Se eu perco um ente querido, meu sofrimento é considerado normal. Se sofro demais, por tempo demais, isso já fica um pouco suspeito – inclusive para mim. Mas qual o padrão do aceitável? A média da população? Por quê? Se tenho uma percepção musical ou uma habilidade matemática acima da média estatística, isso não me inquieta; muito pelo contrário. Se tenho um luto de duração que se prolonga acima da média estatística, antes de condená-lo ao apagamento neurofarmacológico, por que não me interrogo sobre sua causa, no território do sentido, da minha história? Por que não tento entender o que perdi nesse ente querido, o motivo pelo qual a sua falta não pode ser assimilada por mim? E por que eu preferiria anestesiar minha sensibilidade, por mais que ela me custasse o aguçamento da dor, se fosse este o preço a pagar pela intensidade do que vivo como delícias? E se dores e delícias fossem “avesso” e “direito” de uma superfície contínua?...
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